Fico sempre perturbado com as mulheres
demasiado bonitas, nunca sei se são para ser olhadas ou evitadas, contempladas como
merecem ou deixadas em paz,
porque aquele dom não é culpa que se carregue para devassa
alheia. Mas esta mulher parecia uma aparição, uma fada, saída da mata em frente, que era
uma mata verdadeiramente encantada. Não estou a brincar, isto foi mesmo assim: eu estava
deslumbrado pela beleza dela e ela devia ter uns setenta e muitos anos, talvez mesmo oitenta.
Levantei-me no fim do almoço e, quando ia a passar pela mesa dela, não resisti e, em francês -
porque a tinha ouvido falar francês -, perguntei-lhe delicadamente se lhe podia dizer uma coisa.
Ela fez que sim, com os seus olhos de água, e eu disse-lhe exactamente o que pensava: que
ela era, talvez, a mulher mais bonita que eu já tinha visto. Ela sorriu, um sorriso lindo mas
triste, como se aquilo lhe causasse mais sofrimento do que alegria, pousou uma mão de dedos
esguios sobre a que eu tinha apoiado na mesa, e disse-me:
- Oh, non, jeune homme, la beauté c'esr la jeunesse! _ Uma frase cruel, sem apelo nem
misericórdia, de cuja infalibilidade me tenho tentado desconvencer desde então.

Sem comentários:
Enviar um comentário