domingo, 1 de novembro de 2015

O Amor de um irmão

Paulo era um príncipe da palavra, alguém que se deslocava entre a suavidade das nuvens e a tempestuosidade da certeza com que se batia pela sua visão do mundo Não era fácil ser o seu irmão mais novo, mas com que saudade recordo as discussões que mantínhamos e nas quais eu me afundava numa sensação de pequenez e ignorância Batalhou até ao fim, numa coerência ímpar que a mais • ninguém conheci. Imperturbável no seu sobretudo branco, que lhe assentava como um manto real, o Paulo viveu de acordo com as suas próprias regras, das quais este livro é, apenas, mais um capitulo surpreendente. Uns olhos transparentes de bondade e luz, uma criança feliz embalada pelo carinho que devotava a todos quantos tiveram o privilégio de consigo privar, as mãos longilíneas que abraçavam o tempo com a firmeza delicada com que prendia uma cintura de mulher, o chá' tomado a altas horas da manhã, entre sonhos adiados e memórias de uma vida plenamente preenchida. Era assim o Paulo que, em tudo quanto tocava, deixava • um pouco de si e revelava inesperadamente o melhor de todos nós. Partiu tão depressa quanto viveu, sem deixar que nos despedíssemos com os beijos que tanto ' gostava de dar. Levou consigo a música que lhe habitava a alma, como se quisesse adiar o adeus, a última palavra que gostava de pronunciar. Irónico como sempre o Paulo privou-nos do nosso destino de irmãos, de nos sentarmos numa qualquer, tarde soalheira de Setembro, na fresca sombra das figueiras da Tapada fumando um cigarro impossível, entre histórias fantásticas e risos que lhe escondiam as lágrimas de um coração maior de que a terra que pisava. Como tanto gostava teve a palavra final, ou porventura ter-se-á levantado de mesa para ir jà ali e voltar talvez amanhã, quem sabe depois, no seu conceito infinito de tempo, sabendo que o aguardamos com a tranquilidade da espera que votamos aos anjos. Pedro Abrunhosa Porto, 16 outubro 2001

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