sábado, 3 de outubro de 2015


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porque aquele dom não é culpa que se carregue para devassa alheia.

 Fico sempre perturbado com as mulheres demasiado bonitas, nunca sei se são para ser olhadas ou evitadas, contempladas como merecem ou deixadas em paz,
porque aquele dom não é culpa que se carregue para devassa alheia. Mas esta mulher parecia uma aparição, uma fada, saída da mata em frente, que era uma mata verdadeiramente encantada. Não estou a brincar, isto foi mesmo assim: eu estava deslumbrado pela beleza dela e ela devia ter uns setenta e muitos anos, talvez mesmo oitenta. Levantei-me no fim do almoço e, quando ia a passar pela mesa dela, não resisti e, em francês - porque a tinha ouvido falar francês -, perguntei-lhe delicadamente se lhe podia dizer uma coisa. Ela fez que sim, com os seus olhos de água, e eu disse-lhe exactamente o que pensava: que ela era, talvez, a mulher mais bonita que eu já tinha visto. Ela sorriu, um sorriso lindo mas triste, como se aquilo lhe causasse mais sofrimento do que alegria, pousou uma mão de dedos esguios sobre a que eu tinha apoiado na mesa, e disse-me: - Oh, non, jeune homme, la beauté c'esr la jeunesse! _ Uma frase cruel, sem apelo nem misericórdia, de cuja infalibilidade me tenho tentado desconvencer desde então.

CONVOCATÓRIA // Cultura FNAC

CONVOCATÓRIA // Cultura FNAC

quinta-feira, 1 de outubro de 2015

a respiração do mar

poesia: antónio ramos rosa / 



 Errantes as palavras, as janelas, respiração à flor do mar no côncavo da arca, ombro imenso que não encerra, todo o espaço como u...

Amy Winehouse I love you more than you'll ever know LIVE (Inédit RARE)

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jorge palma encosta te a mim

O POETA

Cada vez mais gostas de te encostares a mim.
Porque  não? qual o pecado em sentirmos o nossos cheiros, em deitar sobre o silêncio do Deserto
És tão especial para mim 

Trabalha agora na importação
e exportação. Importa
metáforas, exporta alegorias.
Podia ser um trabalhador
por conta própria,
um desses que preenche
cadernos de folha azul com
números
de deve e haver. De facto, o que
deve são palavras; e o que tem
é esse vazio de frases que lhe
acontece quando se encosta
ao vidro, no inverno, e a chuva cai
do outro lado. Então, pensa
que poderia importar o sol
e exportar as nuvens.
Poderia ser
um trabalhador do tempo. Mas,
de certo modo, a sua
prática confunde-se com a de um
escultor do movimento. Fere,
com a pedra do instante, o que
passa a caminho
da eternidade;
suspende o gesto que sonha o céu;
e fixa, na dureza da noite,
o bater de asas, o azul, a sábia
interrupção da morte.



Nuno Júdice